Lars non grata von Trier

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O que distingue o provocador Lars von Trier do mui-tapete-vermelhável Mel Gibson? Duas coisas:
1. O dinamarquês não acredita em nada do que diz;
2. O australiano não foi declarado persona non grata em Cannes.

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Tempo de mudança

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O clima em Portugal é de cortar à faca. Aparentemente nem a bancarrota, cataclismo com culpado cuja face denota apenas sobranceria, nem a vergonha, esgar mal disfarçado de quem sempre soube o que aqui se passava, conseguem transmitir senso suficiente a uma população envelhecida pelo sul-americanismo de uma revolução estagnada. Sócrates, a face da miséria, arrisca-se a conseguir a máxima consagração que lhe permitirá o velho sonho autocrático. Caso o PS vença as próximas eleições, os meus filhos não me perdoarão a decisão errada que o voto democrático consagrou. É triste nascer com o pecado original. Estas eleições são a derradeira hipótese para que o futuro português seja possível. Que não se desperdicem. Todos menos ele.

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A Crise

Dizem que há aí uma crise. Toda a gente a viu chegar mas ninguém a quer encarar, como uma maleita originada nos maus hábitos individuais.

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Portugal não é Espanha mas também tem terrorismo

Ouvir portugueses com asco a uma eventual vitória espanhola no campeonato do mundo de futebol é tão preocupante quanto a alegria de potencial alternância entre partidos iguais no governo.

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Isto está bonito, está

Há um sinal no presente que muitos se recusam a ver. O escalar do insulto pelos críticos da governação e insatisfeitos com a oposição indica uma crescente ausência de vias de diálogo válidas para canalizar criticas. À falta de razões históricas para nacionalismo regional, a forma como a tendência extremista se manifestará continua incógnita. Há motivos para preocupações mas, como seria de esperar numa sociedade decadente, as brincadeiras entre facções tomam precedência sobre o tom de voz reduzido de uma nação despedaçada. Razão tem o pedinte que na rua apregoa “isto está bonito, está”.

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Adágio ao Optimista

Se a alma não é pequena mas a determinação o é, que adianta acreditar em algo fruto de ter fé?

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A Carta

A carta que aqui transcrevo foi encontrada no velho armazém dos correios aquando da ocasião da penhora. Por intermédio de um amigo bem colocado no círculo restrito dos informados de Lisboa pude aceder ao armazém, como é hábito nesse círculo, para retirar e conservar os objectos que a cada um possam interessar. Esta carta em particular pareceu mais intrigante do que as restantes depositadas em amontoados. Talvez por serem na maioria contas e avisos de corte no fornecimento de serviços como luz e água. Com data da década de setenta, sem que se entendesse exactamente o ano dada a ilegibilidade do algarismo das unidades; com caligrafia no envelope entre o impecável e o demente, esta carta tornar-se-ia inspiração para o meu mais recente romance.

Meu caríssimo amigo,

Espero que esta carta te encontre de melhor saúde do que a que eu usufruo nos dias que correm. Decerto saberás não me restar o tempo suficiente para alimentar convenientemente ódios velhos e questões de ego terrenas, por muito que a minha vida se tenha dispersado em vãs tentativas.

Não espero o teu perdão ou a retribuição da amizade que agora, tão tardiamente te concedo. Bem sei quão difíceis de suportar são as agruras de uma vida de provimento para a família, ainda que não tenha tido o privilégio de o constatar em experiência própria. Sempre fui um homem só, independentemente do número de almas que me rodearam. Tu sempre o soubeste; afirmo-o com a convicção de quem já só pode perder o pouco que lhe resta. O pouco que me resta. Resta-me o contentamento de não te esquecer e o júbilo de ainda te atormentar.

Elvira, tua esposa e minha musa, deixou-nos primeiro. Quem nos separou durante estes anos, agora une-nos. Une-me a ti e como tal, quer o desejes ou repudies, une-te a mim. Nunca compreendeste, culpando-me de incorrecções divinas de um matrimónio que não era só teu, recusando a simples constatação de que o que esperavas ser o teu conforto também era o meu. Terás porventura questionado tua esposa sobre os seus desejos? Não desejos carnais, que desses todos os homens e mulheres têm, reflectidos em demasiadas pessoas para que possam fazer parte da nossa vida. Pelo menos da nossa vida reduzida a epístola sintética e definitiva. Não, tua esposa desejava muito além das animalidades de um prazer carnal; ansiava a ressurreição através da indelével presença na vida dos outros, não pragmática mas emocional, avultada numa obra transcendente da mediocridade de uma existência vulgar e passageira. Queria ser musa – e foi-o – madre e filha, alfa e ómega de um segmento, convirás, de uma janela temporal que simples e casualmente também nos envolveu.

Ambos fomos figurantes numa peça interminável que, ao desenrolar de cada cena, desfigura a caracterização outrora relevante das nossas personagens. Elvira também. Foi personagem principal até que se extinguiu, como a chama de uma vela que arde até ao fim, deixando nada mais que um leve odor a substância, odor esse, ele próprio, diluindo-se com a cruel mas firme progressão do tempo.

Esta carta é irrelevante, como eu o sou, como tu o és, como ela, por difícil que me seja afirmá-lo, também o é. Foi uma filha para os seus pais, uma mãe para os seus filhos, uma avó para os seus netos… E depois, deixou de ser. Teus bisnetos a esquecerão. Esquecer-te-ão também. Tens sorte, fruto do acaso, afirmo-te sem moralismo. A mim esquecer-me-ão todos os que restam, provavelmente amanhã ou, quem sabe, se Deus mo reservar, no dia seguinte; a estes que em breve não se lembrarão, estou profundamente grato por ainda resistirem a uma memoria sem significado ou sentido, como os restantes cedo entenderam, esquecendo-me ainda em vida.

Decerto achaste que seria esta a carta de um pobre moribundo procurando uma ilusória paz de tarefa cumprida. Enganas-te, meu mais querido amigo. Meu único amigo. Trata-se de uma carta vingativa, como apenas um amigo a pode escrever. Limito-me a usar o teu sentimento inevitável de misericórdia para te obrigar a arrostar a miséria da tua existência, do teu ser, da tua crueldade e indignidade que te transformou num abjecto velho condenado. Para que possamos morrer em paz. Lembrar-te e fazer-te reviver o ódio que por mim sentes só te pode melhor preparar para os dias restantes até o silêncio eterno. Indulta-me esta última provocação sem resposta, nem que para o efeito necessites de acreditar serem as palavras de um velho demente.

Decerto recordas a noite, a única noite que podes recordar com ardência suficiente para dispensar apresentações alem do próprio artigo definido. A noite. Lamento não ter sido veemente na aversão que então te expressei. A tua presença despropositada, ares de anafado saloio, postura de arado e olhar denunciante do disparate sôfrego da tua bastarda concepção rendiam-me as defesas virtuosas de te esventrar logo ali. Deleitei-me inúmeras vezes com a visão absurda do teu fétido corpo pálido carcomido pela bicharada da terra. A imagem da tua extinção alimentava-me de uma necrofilia exuberante, como se a minha vida se alimentasse do extinguir da tua. Lúgubre, bem sei. Com a eloquência dos anos, tornou-se também símbolo da minha derrota. Deveria ter-te morto quando tive oportunidade. Poupar-nos-ia sofrimento e mágoa; a ti por nunca teres tido a Elvira apesar da partilha do leito em longas décadas; a mim por me encurralares na paixão do meu ódio.

Porque contigo ela casou nunca foi causa para dúvidas. Ao dar-te o que supostamente querias, o sinal de uma vitória num triângulo que só tu imaginaste, ofereceu-te o corpo por despeito. A atracção extinguir-se-ia rapidamente. A tua frivolidade isso asseguraria. Alvura e grandes peitos transformam-se em palidez e adiposidade frágil. O teu grande amor nunca passou de lascívia. E sabes, o prazer infinito que obtenho da constatação de que, na realidade, o teu troféu nunca foi o corpo com que copulavas e sim, em cada grotesco arremesso ao corpo que não merecias, um estupro dirigido a mim. Passaste toda uma vida a fornicar-me por interposta pessoa, como um bicho repugnante, um maricas consumado e consumido por uma paixão senil.

És meu amigo e tens o meu perdão, quer o desejes, quer o repudies. Morre no conhecimento do que és, ninguém o pode fazer por ti. Se te tivesse morto, não terias passado uma vida inteira como homossexual. Ter-te-ia poupado do embaraço. Teus filhos, bastardos para ela, são meus filhos. Sempre os odiei.

Agora que sabes o que és, algo que sempre soubeste mas ardilosamente ignoraste, podes morrer na paz de me reconheceres como o amante da tua vida.

Até breve seria despropositado,

Teu amigo,

Licínio.

A carta estava ainda fechada quando me apropriei dela. O recipiente nunca a leu. No envelope constava uma simples vinheta com a palavra “falecido”.

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Nietzsche projectado em plano cartesiano

Entre o bem e o mal, o céu e o inferno, a fêmea e o macho, o norte e o sul; há o reconhecimento e o desprezo, o purgatório e o limbo, o transexual e assexual, o este e o oeste. Porque será, então, que opções de justiça humana se centram entre o certo e o errado, negligenciando os consequente e indiferente?

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A semana só termina ao Domingo

Distraído entre a sande de mortadela e o caríssimo copo de água da companhia, um “morreu” ecoou na cozinha oriundo da velha televisão que a minha mulher, por ocasião do Natal, em tempos idos dos primeiros anos de casamento me ofereceu para iniciar o longo processo de remodelação da casa. Remodelação é o termo correcto pela existência prévia de algumas peças utilitárias de mobiliário funcional espalhadas pelas escassas divisões que decidimos serem suficientes para o início de vida em comum. O nome que se seguiu foi Saramago, como que secundado pela acção inerente ao verbo morrer. Saramago, o imortal escritor que viveu através da contemplação da morte, chamado a prestar contas à sua musa de forma tão súbita quão súbito é o instante que separa a vida do seu estado natural de não existência.
Demorei minutos, depois horas, a tentar compreender o significado, sem sucesso, da notícia emanada, em precário horário de almoço, da velha televisão da cozinha. Trocam-se as orações de ordem, frases soltas, significados díspares, em uníssono com confusão, não deliberada mas emocionalmente, como se o espírito do próprio povoasse os caminhos obscuros da minha articulação mental.

Recordei uma personagem sinistra, tão sinistra como uma personagem de grande escritor, ofuscado por ideologias que não compreende, vetando uma obra literária pelas filiações políticas do seu autor. Sendo mesquinho, apoucado e rasteiro, virtudes lusitanas apreciadas pelo sabujo do momento, o funcionário farfalhudo, do seu trono de sebo escorreito, determinou a exclusão do escritor dos valores nacionais, valores que nunca explicou além duma escorreita definição recursiva de valores. Um cão vadio sem a dignidade própria de um canino. “Esse ainda está vivo”, pensei eu, volvida a articulação mental eclipsada pelo sentido de perda.

Saramago fez-me companhia quando o ocaso escurecia a sala parcamente mobilada e a televisão da cozinha se desligava. A mesma televisão que, ligada ao almoço de sande de mortadela e caríssimo copo de água da companhia, anunciava o chorrilho hipócrita que o sabujo do momento debitaria disfarçando alívio no respeito que só se pode ter por quem já não pode responder. O que disse e fez Saramago está dito e feito. Poderei levar mais tempo que o disponível até ao meu próprio ocaso para o assimilar. O caminho será o mesmo, anseio é o tempo suficiente de vida para o trilhar.

A vida é isto, quer eu o aceite ou lute em vão pela negação.

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“Tiago esteve aqui”

Espaço inaugurado sem pompa e menos circunstância num éter cibernético ao seu alcance. Imagine um quarto de banho público onde um ser se deu ao trabalho da porta vandalizar com um “Tiago esteve aqui” e compreenderá este espaço. A diferença é que Tiago ainda cá está.

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